Raul era um quase. Sabe, essas pessoas que… quase são alguma coisa?

Raul quase sempre chegava no horário no trabalho. Por mais que tentasse, sempre havia um problema: ora o despertador não funcionava, ora era uma chave esquecida, ora o ônibus que atrasava. Um desastre. Na vida as coisas seguiam o mesmo caminho: quase foi o melhor da turma da faculdade. Quando era pequeno quase foi escolhido para o time de futebol do bairro. Uma vez ele quase ganhou na loteria.

Num dia, indo buscar seu novo óculos, Raul quase conheceu uma menina: lhe faltou um pouco de coragem, coisa que quase nunca acontecia. Numa outra vez, Raul quase quebrou o braço quando caiu de bicicleta.

Sua mãe sempre dizia que ele iria brilhar, mas, você sabe, ele quase chegou lá.

No mundo você tem milhares de chances de ser um quase e poucas de não ser. Raul descobriu isso sozinho: Só há um vencedor em uma corrida, enquanto o restante quase venceu. Poucos passam no vestibular e o restante quase passa. Alguns são promovidos no trabalho, enquanto outros quase foram. Outros tantos quase foram pra Europa e quase conseguiram ter uma banda. Uns quase conseguiram participar de um filme e quase conseguiram falar ‘eu te amo’ pra suas mães. Apenas um quase foi escolhido pra ser o miss universo.

Esse é o mundo, pensou Raul, quando quase perdeu o ponto que deveria descer.

Raul descobriu tudo isso a tempo de esquecer os quase e viver feliz. Ou quase isso.