SophiaSophia entrou em casa correndo, toda suja de terra. Os pais sorriram um para o outro, enquanto a mãe levava a pequena para o banho.

Era uma casa grande na zona sul da cidade de São Paulo. Aos fundos havia um grande quintal, com uma árvore grande e um pequeno balanço amarelo, amarrado com cordas longas no galho mais alto dela. Sophia passava todas as tardes brincando por lá junto da tia Nancy, que cuidava dela enquanto os pais estavam no trabalho.

Depois do banho a mãe trocou ela, enquanto o pai terminava de colocar o jantar na mesa. Todos comiam com satisfação, mas em silêncio. Quem fez reverberar o ar por ali naquela noite foi Sophia:

– “Papai, você me ama?”

Ele abriu um sorriso, mesmo mastigando a carne que havia preparado para o jantar.

– “É claro que eu te amo branquela” – respondeu ele, enquanto olhava para a esposa.

Sophia pareceu não se contentar com a resposta, apesar de sorrir e olhar novamente para o prato. Alguns segundos depois ela olhou para a mãe e perguntou:

– “E você mamãe? Me ama?”

Ela se inclinou e deu um beijo na testa da pequena, sem falar nada. Sophia agora parecia satisfeita e continuou comendo o seu macarrão com frango que os pais fizeram.

Antes de dormir, os pais contaram para ela uma história muito antiga, sobre uma bruxa, uma mulher e 7 pequenos amigos. Sophia adormeceu e os pais desceram para a sala da casa. Algum tempo depois a pequena acordou, ouvindo alguns gritos e barulhos de choro vindos de algum lugar da casa. Ela se levantou, calçando suas pantufas do Pato Donald e levou junto seu travesseiro com seu nome, tricotado pela bisavó.

Quando chegou na sala, viu o pai chorando e a mãe sentada na outra extremidade do sofá, fumando. Ela nunca havia visto a mãe fumar. O pai, ao ver a pequena, enxugou as lágrimas, deu um forte abraço nela, um beijo na testa, pegou algumas sacolas com roupas e saiu de casa. Sophia correu para a janela e ficou acenando, enquanto o pai entrava no carro e ia embora. A mãe tratou de colocar a pequena no quarto novamente, mas Sophia não conseguiu mais dormir. Ela se sentiu culpada por não ter feito a única pergunta que talvez ela não soubesse a resposta naquela noite: “E vocês, papai e mamãe, ainda se amam?”