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Sexta de VerãoMarcos acordou cedo no domingo. Já havia marcado há dias o almoço com a sogra – uma mãe solteirona, relativamente nova, loira e de tetas firmes – e não podia furar, afinal, o interesse era todo dele. Já fazia quase três semanas que ele estava com aquela merda toda entalada na garganta e sabia muito bem que não tinha saída: começar uma discussão com a namorada sobre as compras iria parecer loucura e ela poderia muito bem fingir que não sabia de nada e inverter o jogo – que é a especialidade feminina – contra ele. Sabia também que não seria fácil abrir o coração com a sogra. Ele já imaginava como seria difícil falar as palavras vibrador, pau e buceta para ela, sem sentir um pingo de vergonha.

Saiu da cama, tomou um banho e foi escolher a roupa: “moleque ou mocinho?” – pensou, enquanto colocava a bermuda jeans larga, o tênis cano alto e a camiseta de skate que ganhou da namorada. Na saída olhou para bicicleta e para o bilhete único. Resolveu ir de metrô. Chegar suando não seria muito legal para um almoço.

Era um domingo infinitamente quente. Era o auge do verão e, enquanto famílias falsamente felizes com seus pirralhos se dirigiam aos parques da cidade, ele se encaminhava no sentido oposto, rumo à zona sul da capital paulista. Na estação Sé seu futuro começou a ser traçado. Ele estava em pé no corredor do vagão quando, pela porta à sua direita entrou ela: a amiga ruiva que estuda com a namorada.

Ele já havia visto ela algumas vezes em bares e algumas baladas que acompanhou a namorada. Nunca tinha realmente reparado nela até a última vez que saíram para encher a cara na augusta. Em certo momento em que já estavam todos bêbados na mesa do bar, a namorada foi ao banheiro, enquanto o resto da galera estava fumando na calçada. Até então ele não tinha trocado nenhuma palavra com a ruiva. Para quebrar o gelo, perguntou:

– “E aí, vou pegar mais uma breja, tá afim?”
– “Claro, pega sim, tô morrendo de vontade!” – ela respondeu, enquanto ele não parava de olhar para os olhos castanhos dela. Foi a primeira vez que reparou nela pra valer. Eram olhos grandes que, apesar de castanhos, combinavam muito com o tom do cabelo dela. Eram brilhantes e vivos, como se não houvesse muita tristeza e medo e toda a merda que a vida proporciona atormentando sua mente.

Na volta ele passou ao lado dela e pode ver um pouco mais por dentro daquele decote. Um par de seios branquinhos e arrepiados por causa do vento que entrava no bar. Sentou-se e serviu dois copos, primeiro ela e depois ele, propondo um brinde:

– “Às nossas amizades!”
– “À nós” – disse ela, enquanto se inclinava na cadeira, abraçava o tronco de Marcos e fazia um carinho com a ponta das unhas na sua nuca.

Essa imagem ficou algum tempo na cabeça dele e, vê-la entrar naquele vagão o deixou animado. A garota vestia uma camisetinha regata preta e estava sem sutiã. Estava de fones e carregava uma pequena bolsa no ombro. Vestia uma calça jeans básica e um ‘vans’. Ao vê-lo, ela abriu um grande sorriso, tirou os fones e o abraçou – mas dessa vez sem carinho com a ponta da unha na nuca:

– “Marcos, como vai cara? Quanto tempo!”
– “Tudo indo, e você? Faz tempo mesmo. 2 meses já?!”
– “É, deve ser por aí. Ando meia perdida no tempo. Acho que estou ficando velha maluca. Ando esquecendo tudo.” – e riram. Ela por estar ficando velha e ele por achar ela ainda nova demais para se achar velha, bonita demais para estar velha, com sorriso bonito e jovem demais para ser de uma velha, sem medos, sem tormentos.

Conversaram amenidades: como estava quente, sobre a faculdade, sobre a namorada, sobre viagens e sobre o sobre. Ela o convidou para tomarem uma cerveja rápida. Ele calculou o quanto estava adiantado e aceitou: não era sempre que o destino lhe sorria e lhe entregava uma ruiva. Foram na paulista mesmo, num boteco bacana com cerveja gelada e barata. Tomaram duas garrafas. Ele avisou que precisava ir embora e foram pagar. No caminho para o metrô as mãos deles se esbarraram. Ou será que foi de propósito? Caminharam em silêncio até a catraca onde ele iria embarcar e ela voltaria para a Paulista: morava ali por perto.

A despedida de qualquer tipo de encontro é extremamente importante e vale muito. Ela diz o que cada um pensou durante o encontro e o que está por vir. Rosto completamente virado significa que foi bacana, mas nada além de um papo furado. Rosto pouco virado significa que foi bacana, e que na próxima pode rolar. Rosto reto significa um convite, e que tudo depende de você.

A ruiva veio com o rosto reto e Marcos não teve dúvidas: beijo na trave. Isso significa que foi muito bom, que eles querem, mas que ainda não era o momento. Eles sorriram meio sem jeito e Marcos virou as costas indo em direção à catraca, sentiu um puxão na camiseta e uma boca indo de encontro a sua: era a ruiva. Se beijaram ali mesmo, atrapalhando quem queria entrar e sair da estação. Ele sentia a língua dela procurando a dele e sua ponta da unha fazendo carinho na nuca. Ela sentia ele puxando seus cabelos e apertando sua cintura contra a dele. Ficaram assim um bom tempo, até o bom senso dizer que aquilo ia dar merda. Se desgrudaram. Ela riu. Ele estava sereno. Pegou o número dela e pediu para que ficasse em segredo. Ela piscou com um olho.

Ele foi embora em direção à casa da sogra ligeiramente atrasado. Pensou em tudo que rolou e em como a ruiva era maravilhosa. Sentiu um pouco de remorso, claro. Mas o que você faria se a sua mina estivesse te traindo com outro cara? Usando vibradores e roupas e tudo mais com outro filho da puta?

Chegou à casa da sogra. Subiu os oito andares a pé: queria se distrair antes de entrar. Tocou a campainha e eis que surgiu a bela e jovem sogra, com um vestido fino e leve, abrindo a porta e lhe dando um abraço. Ela pediu para ele esperar na sala enquanto terminava de fazer o macarrão-sagrado-de-domingo. Ao se sentar, Marcos percebeu algo estranho na almofada. Era duro, e fazia alguns movimentos. Num primeiro momento se assustou, achando ser algum animal ou um brinquedo, mas, ao colocar a mão dentro se surpreendeu: um vibrador da mesma marca que a namorada havia comprado estava ali!

Seu primeiro instinto foi cheirar. O Segundo, esconder na mochila. O terceiro, sentir um frio na barriga que lhe lembrava os pesadelos e medos de infância, quando você não sabe ainda como lidar com os simples desafios da vida, como ir ao primeiro dia de aula numa escola nova ou separar uma briga de seus pais ou como dizer para uma garota que gosta dela mesmo sem saber o que é gostar. O medo na sua forma mais pura e instintiva. Esse mesmo medo tomou ele naquele momento e sabia que aquela conversa não seria muito fácil…