VerãoEra uma sexta-feira muito quente. O relógio do computador marcava 16:42, o que significava que em uma hora e dezoito minutos ele estaria saindo do trabalho. Finalmente. A liberdade, tão aguardada, principalmente nas semanas do verão. O sonho durou até às 16:58 quando o chefe, sempre ele, atravessou apressado a sala e parou exatamente ao lado de Marcos. A barriga do chefe apoiada na sua mesa lhe dava certo nojo, mas teve que encará-la e subir os olhos até cruzar os dele.

– Marcos, preciso que revise essas planilhas de pedidos da semana passada, ainda hoje. – Disse o chefe apontando para um arquivo na tela do computador de Marcos.
– Mas são muitos?
– Se fosse pra contar eu mesmo teria feito. Me envia tudo até às 18:00.

Pensando pelo lado bom: Não iria foder sua noite de sexta.

Marcos começou a revisão assim que o chefe virou as costas. Lá pelas 17:48, com os olhos fechando de sono e com o tédio consumindo cada partícula de vitalidade, percebeu um nome conhecido no meio dos pedidos: Juliana Torres, sua namorada. Estranhou o fato dela nunca ter comentado e nem demonstrado interesse nos produtos do site onde Marcos trabalha: moda feminina com marcas bacanas, cosméticos importados caríssimos e, às vezes, produtos de sex shop. Ele não conteve a curiosidade e logo rolou as colunas de sua planilha até chegar à que interessava:

ITENS DO PEDIDO QTDE

  • Algemas com forro rosa 2
  • Cinta liga preta 1
  • Vibrador Rabbit Luz Azul 1

Algemas, tudo bem. Cinta liga, muito bom. Vibrador. Vibrador. Vibrador.
O homem atravessou oceanos, enfrentou guerras e pousou na Lua, mas ainda não sabe lidar com pequenas coisas. Marcos tentou ver tudo pelo lado positivo: Algemas e cinta liga para ela usar com ele, e o vibrador para dar para alguma amiga solteira. “Se bem que se for aquela ruiva gostosinha eu mesmo resolvo, sem vibrador”, pensou Marcos, ao lembrar da amiga de faculdade da namorada.

17:59 – Relatório na mão do chefe.
18:02 – Pés na calçada da rua Bela Cintra.

Ligar ou não para a namorada? Ir direto ou não para casa? Não ligou e foi pra casa. A namorada chegou mais tarde e trouxe uma pizza para o jantar. Comeram e conversaram como se nada estivesse o perturbando. Marcos evitou tocar no assunto. Esperaria a próxima transa para aproveitar os itens comprados. Uma hora depois estavam na cama, na mesma rotina e com mesmos movimentos calculados, como manda a formalidade de 3 anos de namoro. Para desespero e desequilíbrio mental de Marcos, nada das novidades. Será que o pedido foi cancelado? Será que ela irá fazer uma surpresa? Mas e o vibrador? Temeu pelo seu traseiro e decidiu que o melhor era parar de pensar naquilo e ver o que iria rolar. E não rolou. Duas semanas depois ele já não comia, não bebia, não dormia e não vivia. A namorada percebeu algo estranho, mas em todas as vezes que tentou conversar Marcos era direto e reto:

-“Não aconteceu nada”.

E realmente ele estava sendo sincero: Não tinha acontecido nada, a não ser um pedido num site de compras online de duas algemas, uma cinta liga e um vibrador com luz azul.

E não se falou mais naquilo. E não se usou nenhuma algema, nem cinta liga, nem muito menos um vibrador com luz azul. Pelo menos não com ele…

[VOCÊ ENCONTRA A SEGUNDA PARTE DESSA HISTÓRIA AQUI]