Eu era muito pequeno quando fui tirado de meus pais. Não entendia muito bem o que significava a palavra ‘pais’ naquele tempo, mas hoje sei a falta que essa palavra faz. Apesar de ter sido tirado deles, fui criado por uma boa família. Meus novos pais cuidaram muito bem de mim. A gente brincava bastante, íamos sempre ao parque e passeavamos de carro para todos os lugares. Era incrível sentir o mundo de expandindo ao meu redor, apesar da minha pouca idade. Antes a realidade era diferente. Quanto mais o tempo passa, mais minha percepção do mundo muda. E olha que eu ainda sou muito pequeno!

As coisas mudaram muito quando, em uma noite agradável de verão, papai entrou em casa esbravejando. Exalava um cheiro estranho e falava algumas coisas arrastadas, da qual eu não entendia. Ele bateu na mamãe, quebrou algumas coisas de casa e me chutou algumas vezes. Não senti raiva dele, apesar de tudo. Eu devia ter feito alguma coisa muito errada para merecer aquilo. Ele gritava que a bolsa tinha quebrado e que tudo estava perdido. Sabia que a tal bolsa tinha a ver com os papéis coloridos que papai esbanjava por aí, mas não entendia como eu ou aqueles papéis coloridos podíamos ter feito tão mal assim para ele…

Naquela mesma noite papai me jogou dentro do carro e saiu correndo entre ruas e avenidas do bairro. Eu ainda respirava com dificuldade porque o chute acertou a minha costela em cheio! Quando me dei conta, o carro parou de repente. Papai abriu a porta do passageiro e me jogou para fora e partiu, cantando os pneus. Demorei para perceber que estava sozinho, no meio de um lugar desconhecido, sem conseguir respirar direito e com muito medo. Naquela noite eu dormi num gramado, embaixo de uma árvore. Na manhã seguinte um homem, que puxava um carrinho cheio de tranqueiras que achava na rua, veio falar comigo. Ele se sentou próximo da onde eu estava e percebeu o medo que eu estava sentido. Novamente o mundo se tornava uma novidade ao meu redor. Ele me ofereceu comida e me contou um pouco da sua vida. Achei uma história tão triste que nem ousei contar a minha. Desde desse dia passei a ajudar ele na busca por tranqueiras na rua. Ele trocava aquelas coisas pelos mesmos papéis coloridos que fizeram papai ficar maluco! Geralmente eu sentia medo quando ele fazia isso, mas ele nunca gritou comigo e nem me chutou. Ainda bem.

Carrinho de papelãoAs coisas ficaram ruins quando numa madrugada fria o homem do carrinho foi atrás de mais jornal para me cobrir. Um carro muito rápido virou de repente na rua e acertou o homem em cheio. Em segundos muitas pessoas estavam ao redor dele e eu não pude chegar perto para ver o que tinha acontecido. Alguns dos amigos do homem saíam do meio do tumulto com os olhos molhados e me olhavam profundamente nos olhos. Ali eu sentia cada pequena vibração do que tinha acontecido com o homem do carrinho, que até tinha começado a chamar de papai. Outros amigos dele passavam e davam pequenos tapinhas em minha cabeça. Um carro branco que fazia muito barulho chegou e levou o homem embora. As outras pessoas também foram embora. Novamente era eu e o mundo se expandindo e se modificando ao meu redor. Eu novamente não sabia muito o que fazer, pois era apenas um filhote de vira-lata, com fome e frio, em cima de um carrinho cheio de tranqueiras em uma rua desconhecida e sem papéis coloridos para sentir raiva de alguma coisa…