O velho caminhava com uma dificuldade comovente e constantemente recorria ao andador para se apoiar. Há muito tempo não saia de casa. Mal se lembrava da última vez em que desceu as escadas do velho sobrado localizado na encosta norte da cidade de São Paulo.

Fim do mundo

Sua filha ia lá duas vezes por semana para limpar a casa e abastecer a pequena geladeira, que ficava ao lado da cama do velho. “Então a vida é comer e cagar” – pensou ele, ao se lembrar de um poema muito antigo. “E logo vou comer de novo” – finalizou, tentando se levantar da cama para ir ao banheiro. Já não sabia mais que data era. Nem o ano. Nem o que acontecia no mundo externo.

O que sabia era que o pequeno estoque de cachaça, que ficava escondido no pequeno cofre fixado no fundo de se guarda roupa estava acabando. Numa certa tarde chuvosa a realidade bateu nele, como uma pessoa que acorda de um sono muito profundo. Você já sonhou que estava caindo e acordou? Foi assim que aconteceu. Ele saltou da cama, encostando na cabeceira lentamente. Suava muito. Se deu conta que estava sozinho há muito tempo. Tateou a lateral da cama em busca da garrafa, mas ela estava vazia. Se esforçou para chegar até o outro lado da cama, abrindo a geladeira. Percebeu que ela estava desligada e que tudo lá dentro fedia a podridão e coisa velha.

Não soube dizer quando foi a última vez que a filha havia ido lá. Sentia uma tontura e fome imensas, mas não havia comida e nem água. Com muito sofrimento sentou-se aos pés da cama, puxando para si o pequeno andador, enquanto calçava os velhos chinelos. Se arrastou pelo corredor, notando a casa muito mais suja do que deveria estar. Parou no alto da escada, encarando fixamente o primeiro degrau. Há muito não fazia aquilo, mas a necessidade o empurrava, como o instinto de um animal encurralado. Apoiou lentamente o lado direito do corpo no corrimão, descendo o pé direito para o primeiro degrau, enquanto se apoiava no andador com o lado esquerdo. Conseguiu descer os 23 com muito sofrimento, mas sem acidentes.

A porta da frente da casa estava aberta, exibindo uma rua alagada e vazia. Vasculhou os cômodos do térreo estranhando muita coisa deles: não descia lá há muito. Nenhum sinal de presença da filha por ali. Foi caminhando vagarosamente até a porta, vislumbrando a vizinhança: casas quebradas, destruídas. Nenhum sinal de pessoas. Tudo parecia em ordem, a não ser as coisas quebradas e nenhum pessoa nas ruas. Resolveu se arrastar pela rua, mergulhando até os joelhos naquela imensidão de água. Senti a chuva escorrer pelo rosto, sentiu frio como há muito não sentia. Sentiu-se vivo. Caminhou por muito tempo, por ruas e avenidas alagadas e desertas. Nenhum sinal de pessoas. Nenhum sinal de animais. Nenhum sinal de vida.

A idade avançada deu as caras depois do velho andar por quase uma hora, sem encontrar nenhuma pessoa. Achava tudo muito estranho. Seria o fim do mundo? Talvez não. Uma quitanda estava aberta, exibindo frutos velhos em cima de um balcão. O velho escolheu os menos ruins e comeu. Saiu andando pelas ruas, sem destino certo. Após muito tempo caminhando e com muita dor ele encontrou uma biblioteca. Entrou e parou no meio do imenso salão da biblioteca com livros até o infinito que o cercavam por todos os lados. Não havia sinal de vida por ali também. O velho sentou-se em uma pilha de livros e pegou o mais próximo a ele. Finalmente estava livre das pessoas. Finalmente poderia descansar. Abriu o livro e percebeu que não conseguia ler nada: havia esquecido os óculos em algum lugar de sua casa, do qual não sabia o caminho de volta…