SalmãoEstavam sentados frente-a-frente no restaurante japonês. Enquanto aguardavam os pratos(se o peixe é cru porque demora tanto para servirem?) trocavam carícias por cima da mesa. Estavam de mãos dadas e se olhavam no fundo dos olhos, como um casal de adolescentes que descobre o primeiro amor.

Tal ato afetivo foi interrompido quando o celular dele tocou muito alto em seu bolso esquerdo. Ele engoliu seco e fingiu não ouvir, tentando manter o foco naquela cena romântica. Não adiantou. Ela percebeu e o avisou. Ele desajeitado e tentando parecer inocente sacou o telefone do bolso e olhou no visor o nome “Estela Augusta” brilhando em sua cara. Fingiu atender mas disse que caiu a ligação. Nao deu certo, pois em 2 segundos depois Estelinha ligou novamente. A namorada olhou desconfiada e ele teve de atender.

– “E aí amor, onde você tá? Queria te ver hoje!” – disse Estelinha categoricamente, como se solta-se sílaba por sílaba no ar, fazendo-se ouvir por todas as mesas ao redor.
– “Acho que ligou errado.” – disse ele, desligando o celular naquele mesmo momento. Antes perder uma transa casual com a nova estagiária do escritório do que a namorada perfeita para ele, do jeito dele e, como diziam os amigos, o número dele.

A namorada fingiu não ouvir, voltando ao ponto em que pararam, entre carícias e juras de amor. No momento em que os pratos eram servidos(finalmente!) ela se levantou e perguntou pelo toilet. Lá ela lavou o rosto e atendeu o celular:

– “Oi amor”… “Estou saindo já já daqui”… “Isso, me pega em casa”…”Quero você também”…”Também te amo”…”Ele nem desconfia, não esquenta”…”Beijo”.

Ela voltou à mesa e eles conversaram sobre a novela, o gosto cru do salmão cru e sobre a peça que ela quer ir ver no domingo. Vai ser o último fim de semana em cartaz e ela não pode perder.