Diabo na Cruz

A banda portuguesa Diabo na Cruz mescla o ROQUE com músicas típicas de Portugal, Angola, Mali entre outros, ao fim de toda esta mistura inusitada, surge um som que ALIGEIRA o ambiente !

Conversei com o guitarrista/vocalista da banda, Jorge Cruz, e para minha surpresa o mesmo se diz muito fã da música brasileira e levantou uma polêmica:

“É que chega-se a uma altura em que o estilo de vida alternativo é ser casado, já pouca gente se mete nisso”

Confira!

1- Porque o nome Diabo na Cruz?  É um nome que carrega algum conflito e isso pareceu interessante para apresentar a narrativa do que pretendiamos fazer como grupo. O diabo é uma figura recorrente em certas festas pagãs do norte de Portugal, por outro lado o meu apelido é Cruz, era tentador ter um grupo nomeado ao jeito de Van Halen ou Bon Jovi, algo verdadeiramente contrastante com a imagem que normalmente se tem da música de tradição portuguesa.

2- Além da música típica lusitana, quais são as outras influências no som de vocês? Há quem diga que a diferença entre o plágio e a originalidade está na quantidade de referências que concorrem ao mesmo tempo num determinado trabalho. Se a influência for só uma canção dá em plágio, se for uma centena de albuns se calhar dá em qualquer coisa de original. Não sei se é verdade, mas nós procuramos manter uma relação aberta com um cenário extenso de música pop e popular que vai desde Bob Dylan a BrianEno, do ElvisCostello aos ZZTop e inclui música do mundo que conhecemos como a MPB, música de Angola, do Mali, ou até musica sufi ou música pimba

3- Qual a ligação da banda com a cidade de São Paulo? Pois há uma citação à cidade na música “Fronteira”  A ligação não é concreta, nessa canção fala-se de emigrar e de sítios que passam pela cabeça dos portugueses quando pensam em fugir de um beco sem saída, saltando para outro país. Durante muito tempo, Portugal recebeu gente do Brasil à procura de trabalho, parece que estamos a entrar numa era em que vai ser ao contrário e há muitos portugueses a pensar de novo no Brasil como país de acolhimento para uma nova vida. Na música fala-se de receber calor de um povo irmão, procurar trabalho onde há quem dance. Isso é também um bom pretexto para dizer qualquer coisa sobre a música popular portuguesa, em oposição à música popular brasileira ou angolana, por exemplo. Uma parte importante da razão do nosso trabalho é precisamente a missão provocadora de resgatar a dança para a nossa música popular.

4- O Diabo da Cruz, cita muitas vezes a palavra “casamento” em suas músicas, é proposital? Temos uma canção sobre o casamento, sim. É que chega-se a uma altura em que o estilo de vida alternativo é ser casado, já pouca gente se mete nisso, pelo menos nas gerações mais recentes, daí que tenha parecido um grito contra-cultura justificável. Nós não sabemos se ser casado é melhor do que ser solteiro, mas se calhar não é pior. Julgo que as pessoas casadas vivem mais tempo que as solteiras ou divorciadas, parece que está provado.

Roque Popular

5- Este CD mais recente o “Roque Popular” está mais Rock e melódico do que o “Virou”, isto é um amadurecimento do próprio som de vocês? Por um lado sim, mas por outro lado não há necessariamente uma linha contínua no nosso som em que o Roque Popular possa anunciar para onde a banda vai a seguir. Este foi um disco muito peculiar para segundo de uma banda. Em vez de nos agarrarmos ao que tinha funcionado bem da primeira vez, decidimos perguntar-nos o que é que uma banda que fala sobre o seu país e procura fazer música contemporânea ao mesmo tempo que se debruça sobre as raízes melódicas da tradição teria para expressar se pretendesse ser um reflexo justo do momento que vive em Portugal. Por isso, saiu-nos um disco mais denso,mais tenso, mais intenso. Não quer dizer que já a seguir não façamos um disco de dança só para aligeirar o ambiente.

6 – A banda cogita em fazer algum Show na América do Sul, mais especificamente no Brasil? Isso seria muito interessante. Estamos a pensar nessa questão cuidadosamente, terá que coincidir com o momento certo no amadurecimento da banda e com a segurança de haver as condições técnicas necessárias para levar um sexteto de rock tradicional e seus instrumentos para o outro lado do Atlântico.

7- Jorge, existe alguma banda ou artista brasileiro que você ouve? Esta é uma pergunta sensível para o Diabo na Cruz. Não só há artistas brasileiros que ouvimos como não sei se seria possível fazermos a música que fazemos com o desassombro e a paixão que carregamos se não fossem os exemplos da música brasileira e a forma como sempre renovaram suas linguagens e tradições. Aquilo a que se chamou o manguebit foi muito importante para abrir os nossos olhos. Mundo Livre S.A. é das minhas bandas preferidas de todos os tempos, Pedro Luís e a Parede, Chico Science e Nação Zumbi. Depois, todo o legado do tropicalismo, os primeiros discos do Gilberto Gil e do Caetano, o Tom Zé, os Mutantes e mesmo antes o grande Jorge Ben ou mesmo Tim Maia e o seu disco sobre o Racional, isso é tudo imperdível. Mais recentemente, Marcelo Camelo e Max de Castro por exemplo continuam a inovar e a fazer música muito especial.

8- O que mudou no som do Diabo na Cruz com a saída do B fachada? Julgo que terá mudado o mesmo que mudou nos discos do B Fachada a partir do momento em que ele saíu de Diabo na Cruz. Não é fácil de quantificar, mas muda sempre qualquer coisa.

9 – Sei que vocês trabalham noite e dia pelo roque popular, isto realmente traz um retorno financeiro atrativo? Pois na era do Download, não se ganha mais dinheiro com venda de discos, pelo menos aqui no Brasil, em Portugal a história se repete? Sim, os discos são um investimento para darmos a conhecer o nosso trabalho e depois o podermos tocar ao vivo. Olhamos para os discos como a forma necessária para caminharmos no nosso reportório em direcção ao dia em que possamos apresentar um espectáculo perfeito, algures entre os Queen de 1986 e o Leonard Cohen de hoje em dia.

10 – Você tem algum recado para os brasileiros que gostam de Diabo na Cruz? Para os que gostam e para os que ainda não conhecem, apenas o convite à vontade de nos ouvirmos uns aos outros. Toda a cultura tem a sua música, e na nossa vale a pena conhecer tanta coisa, e tanta coisa que não é fado. Convidava-os a conhecer o José Afonso, a Banda do Casaco, o António Variações, os Heróis do Mar, o Fausto, os Gaiteiros de Lisboa e muitos outros e a ficarem preparados para o dia em que o roque popular lhes bata a porta, desejando que esse dia chegue em breve.

Então conheça !

Bomba Canção – CD Roque Popular

Casamento – CD Virou