Metro

08:00 – O despertador toca. Ele aperta a soneca. Mais 5 minutos não vão fazer mal…
08:00 – O despertador toca. Ela se apressa em desligá-lo, apesar de quase não conseguir abrir os olhos de tanto sono.

08:05 – Ele aperta a soneca por mais 5 minutos.
08:05 – Ela já está no banho, pensando na roupa que vai usar, na maquiagem que vai passar e em qual perfume vai exalar durante aquele dia.

08:15 – Ele aperta a soneca por mais 5 minutos, mas não consegue dormir em paz. Está com medo de se atrasar…
08:15 – Ela está fazendo os planos do fim de semana – se vai ou não naquele barzinho com o cara que conheceu na semana passada, se vai ou não naquela peça que está estreiando e que o ex participa ou se deixa para outra semana a limpeza de pele agendada há 10 dias.

08:20 – Ele salta da cama assustado. Está atrasado!
08:20 – Ela fecha o chuveiro correndo. Deve estar atrasada!

08:35 – Ainda mastigando uma bisnaguinha, ele se olha no espelho: 24 anos, começando a ficar careca, a barba por fazer, olhos castanhos escuros muito densos – como se trouxessem todo o fardo e tristeza do mundo. Percebeu a pele do rosto mais craquelada. A rotina têm acabado com ele. Ou seria o álcool? Come bem raramente. Não pratica esportes. – “Não importa” – pensa ele – “um dia tudo acaba”, e começa a escovar os dentes.
08:35 – Ela está sentada na cama, enrolada na toalha. Olha para o guarda-roupa aberto, com seus dezenas de calças e blusas e camisetas e sapatos. Não sabe qual roupa colocar. Pensa no que combinaria com os cabelos pretos curtos e seus olhos castanho claro. Dependendo da roupa deixaria o piercing no nariz, para dar um destaque e passaria o lápis para realçar os olhos. Apesar de ter só 23 anos, sente que já é uma mulher madura que sabe o que quer. – “Independência” – pensou ela – enquanto olhava fixamente para o guarda roupa aberto.

08:55 – Ele chega correndo na estação de metrô, mas acaba perdendo o trêm. Vai ter que esperar o próximo…
08:55 – Ela está sentada na cama, olhando para o guarda-roupa ainda aberto. Está com uma calça jeans preta até os joelhos e sente um vazio por dentro. – “Não tenho roupas” – pensa ela – após voltar para casa pela terceira vez, para mudar o look. Algo não estava combinando muito bem…

09:10 – Ele já está na lata de sardinha, esmagado de todos os lados por gente nova e velha e bem vestida e cheirando à roupa guardada há muito tempo e crianças resmungando e músicas vazando dos fones de ouvidos com rock e funk e tudo mais. O trem que ele está chega na…
09:10 – …estação Ana Rosa do metrô. “Finalmente chegou o trem” – ela pensou, depois de ter perdido dois por estarem muito cheios. Entrou como pôde, empurrando um cara barrigudo vestindo sua roupa social semi-amassada. Assim que a porta fechou reparou em um cara que…

09:15 – …estava olhando para ela fixamente. Achou lindo os olhos castanhos claros e como a roupa toda combinava, parecendo ter sido escolhida por acaso, sem grande perda de tempo. Ela era muito bonita. Não conseguiu analisar muito pois o empurra-empurra encobria sua visão dela. Ela…
09:15 – …tentava olhar melhor para ele. Achou o cara bonito e com um olhar penetrante, apesar da cara séria, ele devia ser bacana.

09:20 – Ele jurou que se estivesse mais perto iria falar com ela.
09:20 – Ela sentiu vontade de falar com ele.

Por acaso, metade do vagão desceu e eles ficaram lado a lado. Ele respirou fundo. Ela transpirou. Se olharam por segundos. Quando ele ia começar a abrir a boca para falar qualquer bobagem e puxar assunto, uma nova multidão entrou no trem, como se fugisse de uma guerra. Uma manada de gente sem cérebro se empurrando mutuamente. Ela foi arrastada para um lado do vagão enquanto ele era arremessado para o outro. Nunca mais se viram.

Na cidade grande não há espaço para o amor…