foiceEstava sentado à mesa com o prato de arroz e feijão frio em sua frente. Sentiu um calafrio que passou do seu ombro esquerdo para o direito em apenas 2 segundos. Enquanto todos os pelos do seu braço ficavam arrepiados sacou da parte de trás da sua calça uma arma. Imediatamente apontou ela para a cadeira da frente, encostando o cano na testa dela. Ela, por sua vez, como sem fazer força, encostou, suavemente, sua foice no pescoço dele. Os pelos do braço dele ainda estava arrepiados. Talvez fosse pela passagem dela por trás dele ou talvez fosse pela sua aparência: um capuz preto, um rosto esfumaçado, um leve sorriso sarcástico e uma foice muito grande. Ficaram naquela tensão por um tempo, até uma gota de suor dele escorrer de sua testa, percorrer seu rosto, deslizar sobre o queixo e cair exatamente na borda da mesa. Ela sorriu mais ainda. Ele quebrou o gelo:

– Então você veio me buscar? É assim que as coisas funcionam?
– Hoje você está com sorte. Eu vim te ouvir – disse ela, com uma voz doce, porém arrastada, por causa do sorriso permanente.
– Mas o que você quer ouvir?
– O seu dia!

Ele estranhou aquela pergunta, mas prosseguiu. Afinal, ele tinha uma foice muito bem encostada no pescoço e a arma na testa dela talvez não fizesse muita diferença.

– Eu acordei cedo. Não tive tempo de comer nada pois estava atrasado para o trabalho. Percorri cerca de uma hora e meia a cidade, dentro de um ônibus e um metrô e caminhei alguns minutos até o trabalho. Cheguei lá 2 minutos atrasado e meu chefe fez cara feia para mim. Trabalhei bastante até o meio da tarde, quando consegui comer um lanche rápido e voltar para o trabalho. Fiquei até tarde por lá, voltei para casa, tomei um banho e dormi o mais cedo possível, pois precisava acordar cedo para trabalhar no outro dia… – ele disse, buscando em cada palavra relembrar o que havia feito naquele dia.
– E o que você fez na semana passada?
– Basicamente as mesmas coisas.
– E quais promessas de ano novo você cumpriu?
– Sobre trabalhar menos, cuidar da minha saúde, visitar os meus pais e perder peso… – ele se sentiu envergonhado – Nenhuma!

Ela tirou a foice do pescoço dele e seu sorriso havia desaparecido. Ele continuava com a arma grudada na testa dela.

– Pelo visto não tenho trabalho para ser feito aqui. Você está se encarregando dele por mim… Hoje eu só estou buscando as pessoas boas que souberam valorizar a vida – ela disse, se levantando vagarosamente, sob a mira da arma dele.
– Mas eu não sou bom? – perguntou, com a voz engasgada, possívelmente escondendo um choro.
– Sempre foi – ela disse, desaparecendo no ar e fazendo ele voltar a se arrepiar.

Ele então virou a arma contra sua testa e puxou o gatilho.

A arma falhou.

Tentou novamente.

A arma falhou novamente.

Voltou a encarar o prato de comida, pensando em comer o mais rápido possível, para dormir o mais cedo possível, para acordar o mais cedo possível e trabalhar o máximo possível.

Ele era bom. Sempre foi. A rotina é que já havia lhe matado.