Eram tempos difíceis e de constante tensão. Ela já não conseguia controlar-se, a impaciência a consumia cada vez que pensava em sua partida. Havia ansiedade para o beijo de despedida, mas também havia dor.

Já respondia a todos com meias palavras e sempre com o olhar perdido. Fugia da rotina para vê-lo, achando que isso amenizaria seu sofrimento, mas o coração ainda palpitava ao ver seu sorriso.

Olhar-se no espelho naquela noite fazia com que o desejasse mais. Em frente aquele reflexo, via-se nua, encarando suas curvas imperfeitas e sem simetria. Ela é linda, todos sabiam, mas não era assim que se sentia. Olhou o relógio e viu que estava na hora de tomar mais uma decisão, bem mais simples do que outras tantas que já havia tomado, que roupa usar. Escolheu o vestido preto com um leve decote depois de provar quase todas as roupas que tinha. Achou a pulseira dourada e aquele pingente que usou no dia do seu primeiro encontro. Tudo acabaria como havia começado.

Lembra-se de todas as historias românticas que já lera e aquilo não parecia nada com os livros. Tinha borboletas no estômago e seus pensamentos eram atropelados uns pelos outros, até parecia que estaria em um congresso com centenas de pessoas a olhando e esperando um único erro para atacar. Antes fosse, pois quando o olhar dele percorria seu rosto e seus dedos acariciavam seu colo, o mundo já não era  o mesmo, sua respiração parava e sua pele aquecia até corar.

Ao caminhar para o encontro, sentia vontade de correr, talvez se corresse tudo acabaria mais rápido e menos doloroso. Ele já não saia da sua cabeça, seu reflexo estava nas vitrines e sua voz ecoava na sua mente.

O pior acontecera, estava perdidamente, loucamente e desesperadamente apaixonada, logo a quem jurou esquecer e apagar da sua memória.

Estava presa a um amor incondicional.

Lá estava ele, de camisa rosa e cabelo despenteado. Ela sorriu e todas as frases que havia programado para dizer se perderam no vazio daquele silêncio.

A mão quente dele tocou sua fina pele branca e um beijo lhe foi dado. Ele disse que há possibilidade de voltar, talvez dentro de alguns meses, mas ela sabia que poderia levar mais de um ano. Sua vida não podia parar para aguardá-lo, não havia sido ela quem o procurou e não pediu para se apaixonar. Odiava não ter controle sobre as situações.

Depois de longos minutos de conversa, desculpas, justificativas e promessas de que tudo ficaria bem, era hora de ir. Deu um beijo no rosto de barba por fazer e acariciou seus cabelos negros por um ultimo instante. Seja forte! É o que ele espera de você. Queria chorar, gritar e implorar para que ele largasse tudo para viverem uma história juntos, mas não era correto socialmente, politicamente, eticamente ou qualquer outro ente.

E lá estava ela, parada naquela rua fria e escura apenas olhando-o partir. Cada passo mais distante. Não seria naqueles braços que ela repousaria a cabeça, não seria aquele perfume que sentiria, não seria aquele beijo…

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e já não havia o que fazer. O que estava feito, estava feito.

Quem sabe um dia ele volte, sorria e diga que a ame. Quem sabe um dia ela o esqueça. Ou quem sabe um dia ela simplesmente acostume-se com o torpor.