“Eu quero sair com outros homens”.

E foi ao final dessa frase que ela se foi. Os dias ainda eram ensolarados e o futuro a dois parecia sempre feliz para ele. De repente, como uma chuva de verão que chega, desestrutura toda uma cidade e vai embora sem avisar, ela se foi. No começo não parecia real. Quem já esteve cara a cara com a morte de algum conhecido sabe bem o quanto tempo demora para você entender o que aconteceu e superar a morte. A ida dela era uma morte. Quando alguém morre você não pode mais tocar, sentir, fazer planos, conversar… Exatamente o que aconteceu quando ela foi embora.

Ele sabia que ela era um pouco nova, que gostava de emoção e aventuras, que não se contentava com pouco. Ela era linda. Facilmente confundida com alguma atriz da TV ou do cinema. Ela era gostosa. Facilmente engolida mentalmente pelos milhares de homens na cidade. Ela sabia de tudo isso e usava todo poder em seu favor. Provocava, seduzia, mentia. Ele sempre continuava na dela. Talvez seria pelos peitos, ou pelos planos. P por P, de nada adiantou. Ela foi embora. Ele ficou.

No primeiro dia ele ainda achou que a encontraria em casa, depois do trabalho. Era tão natural sair do metrô, andar cerca de 8 minutos até em casa, subir os 8 degraus que separavam a calçada da porta de entrada e encontrar ela, ainda com a roupa do trabalho, fazendo a janta do casal. Muitas vezes transavam ali mesmo, entre a mesa e a macarronada, com todo aquele molho espalhado pelo chão. No segundo dia bateu a saudade. Já sabia que ela não estaria lá como sempre, mas tinha esperança de que ela estivesse arrependida e voltasse ao anoitecer. No terceiro dia ele não foi trabalhar: encheu a cara na noite do segundo e, por ter desistido da vida, ficou deitado na cama. No quarto dia ele se mantinha bêbado, vomitava na cama, urinava em si mesmo e partiu para a cocaína. No quinto dia ele desmaiou. No sexto dia ele resolveu viver. Se levantou, se arrumou, ajeitou tudo e parou de beber. No sétimo dia, todo bonito e perfumado, resolveu ir atrás dela, pois o amor sempre vence.

Saiu de sua casa, virou a esquerda na primeira esquina, desceu mais duas travessas e chegou. Já era tarde, perto da meia noite, e lá estava ela: saia curtinha, um top, uma bolsa no ombro e maquiagem pesada. Estava debruçada no vidro do passageiro de um ford Ka, e imediatamente ele reconheceu aquela bunda. Esperou terminar a negociação, se aproximou e disse:

– “Oi, eu queria te ver.”
– “Para ver é R$ 50, tocar R$70, meter R$ 120, mais o quarto.” – ela disse, limpando o pó da narina esquerda.

Ele sacou os R$ 50, entregou para ela, pegou um cigarro, se sentou na sarjeta e ficou olhando-a por pouco tempo. Logo encostou outro carro, e ela se foi novamente…