Eduardo quando pequeno era conhecido como Dudinha. Dudinha foi conhecido como Dudinha por muito tempo, até crescer e virar o Eduardo. A Vó Antônia ainda chama o Eduardo de Dudinha, apesar de ele já ter crescido.

Dudinha era muito desastrado. Geralmente esbarrava nas coisas da casa, quebrando frequentemente o par de vasos de Petúnia que a mamãe deixava na mesinha de centro da sala. Outra vez Dudinha foi escovar os dentes, mas só acertou a bochecha. Teve um dia que ele bateu a cara toda na porta do quarto, achando que ela estava aberta. Tais feitos deixaram seus pais desconfiados. Numa manhã de sexta-feira nublada, Dudinha recebeu o seu diagnóstico. O maior diagnóstico que até então Dudinha tinha recebido. Tão maior que ele não fazia idéia de que aquilo mudaria para todo e todo sempre a sua vida, até se tornar o Eduardo. 4,5 de miopia e astigmatismo. Dudinha não fazia ideia do que aquilo queria dizer, mas seus pais trataram logo de resolver: ele ganhou um óculos naquele natal.

Só entendeu o significado daquelas palavras mais tarde, quando sua lente ficou mais grossa. Agora Eduardo tinha 5,5 de miopia – problema na visão para enxergar de longe. O astigmatismo faz tudo ficar embassado. É complicado, mas ele já acostumou. Desde que ganhou os óculos naquele natal, quando ainda era o Dudinha, Eduardo parou de derrubar os vasos, bater a cara em portas e até conseguiu acertar a boca com a escova! Sem ele era um desastre! Se perdia nas ruas, tomava o ônibus errado, conversava com estranhos achando ser conhecidos. Um desastre!

Certo dia, no qual ele desejava ter morrido, Eduardo acordou calmamente pela manhã, estranhando o fato do despertador não ter tocado e ele estar completamente satisfeito com seu sono. O maior problema naquela manhã era que o despertados havia tocado, Eduardo não havia ouvido e estava atrasado pra caralho! Correu pela casa sem perceber o fato de estar esbarrando nas mesas, quebrando vasos, batendo a cara em portas e errando sua boca na hora de escovar os dentes. Sujou a camisa xadrez preta-e-branca com uma pouco de pasta de dente vermelha, mas nem percebeu. Nesse ponto não sabemos se foi o destino, a sorte ou o azar que fizeram Eduardo encontrar as chaves de casa, ao sentar acidentalmente em cima delas quando foi calçar os sapatos.

Estava no ponto de ônibus, enquanto uma chuva fininha caia em todos que estavam por ali. Se deu conta que havia algo estranho quando, no oitavo ônibus que passou, percebeu que não conseguia ler absolutamente nada do nome deles. Se desesperou. Virou repentinamente pensando em voltar para casa e buscar os óculos, que nunca deveriam ter saído de sua face. Trombou em alguém. Num primeiro momento pediu desculpas e ia seguir seu caminho, mas um perfume doce e uma voz feminina o fizeram parar. De perto conseguia enxergar uma loira, com luzes vermelhas nas pontas dos cabelos curtos, uma camisa preta, com quatro ‘dead fish’ escrito, um tênis igual o seu, com três listras brancas, olhos verdes claros e um batom vermelho na boca. Ela se desculpou primeiro, ele não reagiu. Demorou para ambos rirem da situação e ele explicar o que havia lhe acontecido. Pediu ajuda para embarcar no ônibus para o trabalho. Conversaram sobre o trabalho de ambos – que inclusive eram do mesmo ramo -, sobre a banda preferida dele e dela – que inclusive era a mesma -, sobre livros, filmes, estudos, família e óculos.

Foi então que ela ficou alerta, apontou para o ônibus parado no sinal lá atrás e disse:

– Eduardo, aquele lá é seu ônibus. Assim que ele chegar você pode dar sinal, tá? O meu ônibus é esse que tá chegando. Vou indo nessa. A gente se fala! – e deu um beijo avermelhado na bochecha esquerda dele.

Ela subiu no ônibus e assim que se sentou na janela, logo atrás do cobrador, sacou o seu batom vermelho e escreveu perfeitamente ao contrário seu número de celular na janela. Eduardo bem que tentou, mas não conseguiu anotar depois do terceiro número, que não sabia dizer se era um 8 ou um 9. Ou seria um 2? O ônibus partiu. Ela ficou com um sentimento bom de que algo daria certo com ele. Que dali nasceria uma boa amizade ou até mesmo um romance. Eles eram tão parecidos… Ele ficou com um sentimento de raiva, que não passaria tão cedo. Além de perder o telefone dela, ele perdeu o ônibus que estava parado no sinal lá atrás. Não soube dizer realmente se era o que deveria tomar…