CalcinhaA semana estava sendo extremamente cansativa. Claudinho não tinha feito nada de produtivo naqueles dias, além de trabalhar. Comia sempre no boteco do lado do trabalho. Com isso economizava tempo e podia chegar em casa e dormir até o dia seguinte. Chegou a semana inteira antes das nove no trabalho, saiu todos os dias depois das vinte e uma. Ele estava até emocionado por já ser sexta-feira. Acordou cedo e percebeu que não tinha lavado as suas cuecas naquela semana, pois estava muito cansado para lembrar desse pequeno fato. Abriu a 5ª gaveta do seu guarda-roupa e analisou as possibilidades: ir com a cueca rasgada embaixo – cerca de 6cm – ou colocar a calcinha de alguma mina que ele comeu no fim de semana passado. Colocou a cueca e enfiou a calcinha na mochila.

Nos primeiros minutos do trajeto até o trabalho tudo parecia ir bem. Tudo parecia estar em ordem. Na metade do caminho começou o desconforto: por causa do rasgo as coisas lá por baixo acabavam saindo da cueca, o que gerava um pânico enorme nele. Chegou apressado no trabalho e não teve dúvidas: trocou a cueca pela calcinha. Era vermelha e de renda. Ele só precisaria tomar cuidado para que ninguém visse a borda, então levantou as calças para não correr esse risco.

Claudinho foi o último a sair para almoçar, pois precisava entregar os relatórios – que tiraram seu sono a semana toda – até às 14:00. Terminou às 13:55 e foi comer qualquer merda na rua. Naquela altura – de calcinha vermelha, esgotado e sem dinheiro – não importava o tipo de comida que iria saciar sua fome. Voltou pontualmente uma hora e sete minutos depois, estranhando o andar – com cerca de 100 funcionários – quieto e vazio. Se deu conta do problema cerca de dezessete segundos após subir os quatro andares do pequeno prédio localizado na zona oeste da capital paulista de elevador. A escritório estava sofrendo um roubo / sequestro! Sentiu o cano gelado de uma arma na sua nuca, enquanto se dirigia ao seu lugar.

– “Fica quetinho que nóis não vai te machucá”, disse o homem que enfiava o cano gelado da arma na nuca de Claudinho.

No fundo esquero do escritório havia um auditório, com tamanho suficiente pros filhos das putas dos ladrões jogarem todo mundo lá. O homem que enfiava o cano gelado da nuca de Claudinho o levou até lá. Chegando na porta, um dos 12 homens com capuz fez uma revista nele, para garantir que não havia perigo para o bando. Nesse momento foi que Claudinho vislumbrou o que estava por vir: No auge dos seus 97 kilos – cerca de 24 acima do seu peso – com seus gostosos 32 anos nas costas, Claudinho olhou para todos seus colegas de trabalho deitados no chão, olhando para o teto, apenas de cueca(para os homens) e calcinha(para as mulheres). Após a revista, o homem ordenou:

– “Agora fica só de cueca e deita ali com o resto”.

Claudinho sempre foi um covarde, mas, numa situação como aquela, precisava fazer algo. Ou tirava sua roupa e desfilava de calcinha vermelha de renda para todo o escritório rir até a eternidade ou tentava reverter a situação. Tentou reverter. Ele conseguiu tirar o cano gelado da arma de sua nuca, atirou bem próximo do olho esquerdo do cara que o revistou e já se virou, acertando em cheio o peito do homem que enfiava o cano gelado da arma na nuca dele. Infelizmente um dos 10 homens que sobrou acertou um tiro certeiro entre os dois olhos de Claudinho, atravessando toda a sua caixa crâniana e espirrando restos do seu cérebro na porta próxima a entrada do auditório.

Claudinho foi, pela primeira vez na vida, reconhecido por algo que fez. Todas as quase 100 pessoas comparaceram ao seu velório. A família estava orgulhosa de ter um homem guerreiro e justiceiro com seu sobrenome. Os amigos estavam orgulhosos de ver a bravura de um homem diante de um ato covarde como aquele. O único que dúvidou de Claudinho foi o legísta que fez a autópsia no corpo. Para ele estava claro que, numa situação de desespero, o ser humano é capaz de qualquer coisa. Ainda mais um homem acima do peso, sem perspectiva e com uma calcinha vermelha de renda.

Claudinho foi enterrado sem calcinha e sem cueca. O legísta olha todas as noites para a calcinha vermelha de renda, pendurada atrás de sua porta do quarto, junta com outras calcinhas de renda, retiradas de homens coxinha que demonstraram bravura em momentos de pressão…