A sua respiração estava pesada. Talvez fosse o fato de estar sendo pressionado no trabalho. Ou talvez as contas que não paravam de chegar. Ou sua conta corrente sempre no negativo. Ou a distância entre ele e a família.

Antes ele costumava ser mais leve. Talvez fosse o fato de ser mais inocente. Já havia culpado o capital e já havia culpado Deus por sua situação. Só quando ouviu as batidas na porta e o coração acelerou e a respiração pesou mais ainda que ele descobriu o motivo do peso.

Enquanto ele servia um café para ela, pensava na sua vida. Tinha passado dos 20 e poucos anos. Nenhum bem tangível adquirido. Constantes conflitos internos entre estudo/trabalho/dinheiro/mundo. Alguns amigos sumiram. Outros só aparecem de vez em quando. Não costumava ser assim quando ele ainda era inocente.

Ficaram muito tempo calados, olhando as pequenas bolhas do café em suas canecas, que rodavam no compasso da colher revirando o açúcar lá do fundo. Descobriu-se naquele momento que a vida não te dá todas as respostas e nem todas soluções. Momentos como aquelem reviravam o fundo ainda mais profundo de cada um deles. Era preciso correr atrás. Se mover. Constantemente ele se sentia fraco, cansado e pequeno. Não apenas físicamente e mentalmente. Estava cansado da vida em geral, dos falsos amores, das dores que sentia, das falhas com a família. Queria poder ajudar os pais. Vê-los felizes novamente. Mas isso foi há muito tempo. Não havia nada mais a se fazer. A vida não te dá todas as respostas e nem todas soluções.

Ele e ela não conversaram muito naquela manhã. No fundo dos olhos dos dois havia mágoa. Sabiam que eram novos e que iam superar. Sabiam que o amor tinha se esgotado. O que restava era apenas uma vaga lembrança, guardada no fundo da memória e no canto do coração que hoje bate muito devagar, quase como um sussuro do amor em seu leito de morte. O cheiro do perfume que ficava grudado no corpo após um abraço, o sorriso apaixonado após um breve beijo e as manias de cada um. E era só isso que estava lá no fundo de cada um deles.

A canecas secaram. Resolveram não mais se falar e esperar a poeira baixar: “vai ser melhor assim”, pensaram. Jovens são tolos. Velhos são frustrados.