Garota do Tempo“Bom dia”. Ainda era engraçado ouvir isso dela, todas as manhãs, de segunda à sexta, exceto os feríados. Apesar de não nos falarmos há um tempo, quando ouvia aquele ‘Bom dia’, sentia que ela estava sentada ali, na boa e velha cadeira de madeira da cozinha, que ganhamos da sua avó no dia do nosso casamento. Aliás, muitas coisas sobraram do casamento: fogão, geladeira, dois sofás de canto, uma TV de plasma, uma porrada de coisas de cozinha – que nunca toquei por não sentir necessidade – e um cachorro. Rúfio, o cão, parece, às vezes, sentir mais falta dela do que eu. Sinto pena quando ele ouve aquele ‘bom dia’ metalizado saíndo dos auto-falantes da TV e sai em disparada pela casa à procura dela. Será que ele sente a mesmo dor que eu? Será que ela sente mais falta dele ou de mim?

No dia que eu descobri foi foda. Estava estampado em todos os sites de fofoquinhas pela internet: ‘Repórter do Bom Dia Brasil é flagrada aos beijos com galã da novela das 8’. (Porque chama novela das 8 se ela começa às 9?).

Sempre achei o termo ‘galã’ feio. Se eu fosse o dono do site não colocaria uma chamada assim. ‘Galã’ me lembra galo, que lembra galinha, que lembra a minha ex-mulher. Isso foi machista, eu sei. Mas é a única forma patética que eu vejo de arrancar essa raiva canalizada de mim. Estou errado? A outra forma foi com a bebida, mas já superei essa fase. A outra foi começar acadêmica. Paguei e nunca fui.

Era um fim de tarde e aquele link no meu e-mail me deixou imóvel. Foi o meu próprio irmão quem mandou, e foi o primeiro a tentar me acalmar. Sabiamos que esse tipo de notícia pipocava toda hora e que só assim essas merdas de sites sobreviviam. Engoli seco muitas vezes, até o relógio marcar 18:00 e eu correr para casa: precisava conversar com ela o mais rápido possível, antes que meu coração explodisse. Quando cheguei ela estava sentada em cima de uma mala, lendo ’50 tons de cinza’. Me olhou, com os olhos cheios de lágrimas. Então era verdade – pensei – enquanto caminhava lentamente e me servia um copo de uísque. Ela não disse adeus e nem tentou se explicar. Simplesmente saiu. A única coisa que deixou foi um pedaço de papel, em cima da escrivaninha da nossa cama, que dizia: “O tempo é o melhor remédio”. Só isso. 5 anos de casados mais 3 de namoro para ler que “O tempo é o melhor remédio”. E só. O amor é uma merda…

Hoje, quando ligo a televisão logo cedo, e ouço aquele ‘bom dia’ vindo dela, me bate uma baita saudade. Hoje, quando ela conversa com a garota do tempo pela manhã, falando sobre nuvens, chuva ou sol, eu dou uma leve risada por dentro e toda a saudade vai embora. Digo isso porque ela estava certa: “O tempo é o melhor remédio”. E é mesmo. Estou comendo a garota dele.