Já estava muito bêbado e não precisava entrar em mais uma balada naquela noite. Tudo que ele pensava era na cama e no almoço com os pais na tarde de domingo, além da conta no negativo e da ex-namorada que provavelmente estaria com outro cara numa noite como aquela: quente e úmida, onde nem as baratas conseguem ficar paradas nas suas casas.

A JaponesaNão adiantou: Quando se deu conta já estava mostrando o RG para a hostes da casa. “Belo par de tetas” pensou, enquanto ela digitava seus dados no computador. Pensou em elogiar o belo par de tetas, mas provavelmente seria o trigésimo-sexto naquela noite a proferir essas palavras. Deixou pra lá e entrou na balada. Olhou para a comanda que apresentava um número 70 grande, com a palavra consumação ao lado. A noite ia ser pesada… Com ele estavam o amigo acelerado e o amigo cabisbaixo: A namorada sumiu há semanas e não deu mais sinal de vida. Sonzinho pouco animador, patricinhas metidas à homossexuais, homossexuais de verdade se pegando, gente se pegando e ninguém se apegando. Chega uma idade na vida de um homem em que estar numa balada como aquela era muito pior do que estar em casa lendo um livro, principalmente num sábado à noite. A roda gira, mas parece não sair do lugar. Vazio. Tédio. As mesmas conversar ao pé do ouvido, “Vêm sempre aqui”, “23, e você?”, “prefiro assim, ruiva”, “ah sim, essa é minha namorada”, “vou pegar uma cerveja e já volto”. A música na pista naquele dia estava muito alta. Rodou até encontrar um sofá vazio e se recostou. Acordou quando o amigo triste lhe deu um abraço:

-“Obrigado por estar aqui”. Disse ele, com um ar levemente embriagado.
-“Amigos são pra isso”. Respondeu, com um ar de sono.

O amigo então retornou ao sofá e continuou bebendo a sua cerveja. Consumir setenta reais é muito complicado.

Dormiu novamente até perceber que toda a balada estava em fila, na frente do caixa. Levantou e se dirigiu até os amigos. O mais acelerado estava conversando com uma garota. Não saberia dizer se era bonita ou feia, pois o sono e a bebida falavam mais alto naquela hora. Os amigos pagaram e saíram. Chegou a sua vez e a hora de desembolsar os setenta mangos que ele não tinha.

-“Crédito ou débito?”
-“Crédito” – Respondeu, rezando para ter limite.

(Já reparou em como são eternos os segundos da máquina de cartão escrito ‘processando’ quando você não lembra a senha ou não sabe se vai ter dinheiro para pagar?)

-“Deu não autorizado senhor” – Disse o rapaz do caixa, com um ar de desprezo.
-“Manda no débito” – Respondeu, com um ar de desprezo.

(Já disse que esses segundos da máquina de cartão são eternos?)

-“Ih, seu banco tá fora do ar. Vai ali praquele canto junto com o pessoal do mesmo banco”.

Ao chegar reparou rapidamente nas pessoas: Dois caras com jaqueta de couro e topete. Pareciam ter saído diretamente dos anos 70. Um gordo barbudo com cara de simpático e uma japonesa baixinha, de cabelo preso e colete jeans. Nunca foi chegado em orientais, mas sorriu para ela e fez um cara que dizia “que droga, o nosso banco fora do ar bem agora”. Ela retribuiu o sorriso, e disse com um ar de bêbada:

-“Já troquei de banco três vezes, e é sempre essa mesma merda. Segunda vou lá de novo, se eu lembrar…”
-“Eu nunca troquei, mas nem adianta. Tenho certeza que vamos continuar nos encontrando em cantinhos assim em outros lugares…”

Riram. Ela grudou os olhos nos dele que, pela primeira vez em meses, se sentiu estranho. Estranho no sentido físico: sangue acelerando nas veias, coração palpitando, e essas outras coisas que costumamos sentir demais até os 16 anos. Nesse exato momento o segurança chamou a garota ao caixa. “Logo ela. Não tive nem tempo de perguntar o nome” – pensou ele. De repente um papel amarelo, com uma letrinha forçada com um nome e telefone, foram estendidos em sua direção. A garota ainda voltou, lhe deu um selinho e disse:

-“Me liga”.
-“Ligo sim”.
-“Não me esquece”.
-“Não vou”.

O segurança indicou a saída para ela. Minutos depois foi a vez de ele pagar a conta. Banco ainda fora do ar e uma benção: Noite por conta da casa. Saiu na rua e encontrou os amigos num grupo de meninas. Do outro lado da rua a oriental discutia algo com um cara. Gritaram muito e saíram apressados descendo a rua Augusta. O grupinho de meninas se dispersou e logo que se deu conta já estava em casa, com a roupa da noite e de tênis na cama. Pegou o celular e escreveu:

“Espero que nossos bancos não fiquem fora do ar por muito tempo (:”

O banco dele continua ficando fora do ar das 4:15 às 05:15, todos os sábados. A oriental deve ter mudado de banco. E de idéia: Nunca respondeu a mensagem, nunca mais apareceu. Ele ainda frequenta a mesma balada de vez em quando e vai para o caixa no mesmo horário, mas ela nunca mais esteve lá…

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