É muito fácil criticar alguma cultura, estando à distância. Mais fácil ainda quando a se conhece de perto. Apresentarei à vocês dois quadrinhos sobre duas culturas bem diferentes da nossa: Persépolis [2007] e Habibi [2012].

 

Persépolis é a autobiografia da iranina Marjane Satrapi, nascida em Rasth; ela é ilustradora, escritora infanto-juvenil, romancista gráfica e vive, atualmente, em Paris. Persépolis, com humor aliado ao drama de sua realidade, mostra a luta de uma garota para viver sob sua cultura machista: estuda em uma sala apenas de garotas, usa o véu iraniano – mesmo contra sua vontade-, enfrenta uma das revoluções ocorrida no Irã e discute o regime político que insiste em culpar as mulheres por “seduzir” os homens, mesmo cobertas. Marjane se muda para França, para estudar e fugir do regime xiita no qual vive e associa muito bem a cultura ocidental ao seu modo de ver o mundo. Esse hq virou filme de animação 2D, em preto e branco, seguindo a linguagem do quadrinho, e é uma história muito emocionante. Vale a pena conhecer.

 

url marjane675

 

Habibi é um graphic novel escrito e desenhado por Craig Thompson que durou oito anos para ser concluído. Contém mais de 600 páginas de pura poesia visual. Graficamente, é lindo e muito bem construída as interações entre os quadros e os detalhes das mandalas e escrita usadas pelos árabes. A história se passa na Arábia, e conta a história de Dodola, uma jovem mocinha que se casou (foi vendida por seu pai), aos nove anos de idade, com (para) um escriba. Ele a ensinou ler, escrever e lhe contou muitas histórias. Um dia, ela foi raptada por ladrões e quase vendida como escrava. Antes de ser vendida conheceu uma criança, e o salvou, levando-o para longe daquele lugar. Ela o batizou de Habibi; e, foragidos, passaram a morar num navio no meio do deserto. Muitas coisas aconteceram até crescerem, ambos se tornarem adultos e, se separarem por diversas razões. Dodola se trocava para conseguir comida, Habibi foi viver com travestis e muito ocorre neste percurso até se reencontrarem, alguns anos depois.

ciadasletras_habib 953123ThompsonHabibi1 17593

Só de curiosidade, para os que não sabem, Habibi significa “meu amado” e Thompson explica, quase no fim do quadrinho, como a palavra foi formada. É uma leitura muito interessante, tanto da escrita, da cultura e do visual e, desgusta-se essas 665 páginas como quem está com muita fome diante de um prato de macarronada. Ótima leitura!