[Recomenda-se ler o texto ouvindo a música abaixo, bem baixinho e de fones de ouvido]

VerônicaNum tarde nublada, onde seria impossível dizer exatamente se era apenas o começo ou o final do dia, uma garotinha observa através da pequena janela do seu quarto a linha do horizonte carregada de poluição e prédios. Não é uma janela comum. O teto do seu quarto é inclinado, co mo aquelas casas alemãs cheias de neve que vemos nos filmes. A janela dela fica em uma pedaço desse teto inclinado.

ChuvaNa verdade seu quarto é no sotão – o sonho de qualquer criança – e lá ela tem algumas coisas que gosta muito, como sua pequena cama, sua estante de livros e seus ursinhos de pelúcia. Seu nome é Verônica. Pelo menos é assim que o cara de barba a chama. Ela tem só 5 anos. Ela é muito pequena. Ela é muito branca, lembrando um amanhacer carregado de neblina e luz.

É outono, e a maioria dos dias são nublados. As noites são frias. Todas as noites, antes de dormir, Verônica coloca seus dois joelhos emparelhados no chão, ao pé de sua cama. Ela não sabe muito bem o porque disso, mas desde que a mamãe se foi ela vê o papai fazendo isso. Durante todo o outono, ao emparelhar os joelhos ao pé da cama, ela pensa em uma coisa. Uma coisa única, que talvez nem ela mesmo acredite:

– “Eu queria TANTO que minha mamãe voltasse…” – pensa ela, em uma das noites.
– “Eu sinto falta da minha mamãe…” – pensa ela, numa outra noite.
– “Eu quero um abraço quente da mamãe…” – pensa ela, na noite mais fria daquele outono.

ChuvaNo dia seguinte, Verônica ficou a tarde toda no seu quarto de apenas uma janela inclinada que dá vista à linha do horizonte carregada de poluição e prédios. Especificamente nesse dia ela não pode ver a linha do horizonte carregada de poluição e prédios, pois chove torrencialmente do lado de fora. As gotas ficam presas por breves momentos em sua janela e depois escorrem, dando lugar a novas gotas. Pode-se ouvir agora Verônica, no cantinho mais afastado de seu quarto, cantarolando uma canção infantil que sua mamãe costumava cantar para ela. A garotinha está debruçada em um desenho, e pode-se ver uma menina triste, um homem muito borrado e uma mulher com asas. A luz do quarto começa a falhar e um trovão seguido de um clarão fazem com que toda a energia elétrica da casa desapareça.

***

Verônica desce as escadas. Ela começa a ouvir notícias na TV, sobre pessoas que estão voltando à vida, em todo o mundo. Não são zumbis. São pessoas que morreram há muito ou pouco tempo e reaparecem, sem alguma explicação, perembulando nas cidades e campos, sem memória alguma do passado. Verônica se sente confusa e, momentos depois, percebe que seu maior desejo pode se realizar: encontrar a mamãe novamente. O mundo agora está superpopulado mas todos estão felizes: seus parentes conhecidos e desconhecidos podem agora se juntar ao redor de uma mesa e conversar sobreo passado e o presente. Todos estão felizes. Verônica abre a porta de casa e corre a esmo pelas ruas, procurando sua mamãe. Muitos estão perdidos e muitos são encontrados, até que ela avista uma mulher loira, com cerca de 45 anos, sentada num banco de uma praça. Ela se aproxima e a mulher olha para a garotinha. Verônica corre, abraça a mulher como nunca abraçou nenhuma de suas pelúcias. Nenhuma daquelas fofas pelúcias. A mulher corresponde o abraço. Verônica beija a testa da mulher. A mulher beija sua testa e fala baixinho em seu ouvido:

– “Esse beijo na testa é para te proteger.”

Ao terminar essa frase ouve-se, em toda praça, um estrondo forte de um tiro. A bala atravessa a testa da mulher, exatamente onde a garotinha havia beijado, espirrando sangue por todo o lado esquerdo do rosto e manchando boa parte da roupa de Verônica. O homem de barba está lá, com a arma apontada para a mulher, enquanto uma fumaça acizentada saí do cano de onde a bala partiu.

***

ChuvaNovamente ouve-se o barulho de um trovão e as luzes da casa voltam a funcionar. Verônica está lá, debruçada agora sobre um de seus livros. Assim que a energia volta ela fecha o livro, se levanta e escala dois andares da sua pequena estante, guardando o que estava lendo entre outros de seus livros. Ela volta a desenhar. Pode-se ouvir agora Verônica, no cantinho mais afastado de seu quarto, cantarolando uma canção infantil que sua mamãe costuma cantar para ela. No desenho há uma menina feliz, um homem muito borrado e uma mulher com asas, sorrindo. A garotinha se levanta, pendura o desenho na cabeceira de sua cama e, antes de se deitar, dá um beijo na testa da mulher com asas:

– “Boa noite mamãe.” – diz Verônica.

 
[Adaptado do roteiro ‘A Chuva em Verônica’]