Ela estava sentada naquela sala cinza em frente ao computador que marcava 15h15 em um dia de céu negro. Trovões ecoavam pela sala e os arrepios percorriam seu corpo. Estava quente, muito quente. A carta com as verdades de sua vida simples ainda estava em cima da mesa, já havia lido mil vezes e ainda não compreendia seu destino.

Afastou a cadeira e retirou a sandália de lacinho, uma de cada vez. Soltou os cabelos que estavam amarrados num coque mal feito. Retirou a pulseira de pedrinhas coloridas e colocou junto à carta.

Caminhou até a porta descalça, mas ninguém daquela sala notou. Deu uma última olhada para o ambiente parado que lhe agradava tanto pelo simples silêncio que havia ali.

Andou pela rua sem rumo. A chuva caia sobre seus cabelos e encharcava sua roupa. Atravessou a avenida movimentada sem quase olhar para os lados, até que seu deu conta para onde estava indo, para onde seu inconsciente estava levando-a, conhecia o endereço.

Caminhou mais depressa, o coração batia tão duramente que até doía. Quando estava chegando perto daquele portão de madeira, notou que alguém estava saindo. Escondeu-se atrás da árvore de flores amarelas vibrantes. Mas era apenas um senhor com uma sacolinha de mercado que cantava uma melodia conforme o barulho da chuva.

Olhou o número da casa e certificou-se que estava no local certo, sim era ali. A carta havia chego há alguns dias, mas não sabia quem era o remetente. Tinha apenas as siglas P.N.

Seu olhar ficou vazio enquanto pensava no quanto aquela pessoa sabia sobre ela. A maneira como descreveu seu sorriso tímido na frente dos desconhecidos e sua gargalhada sincera quando estava com os amigos. Seu olhar profundo nos momentos íntimos, mas curiosos ao ver as pessoas caminhando pela rua. Como ele sabia que ela caminhava cantarolando? E de seu bom dia para o gato que aparecia na varanda do escritório pela manhã?

Enquanto as gotas geladas caiam sobre sua pele, fechou os olhos e tentou imaginar o rosto daquele ser que a deixou noites sem dormir.  Um calor preencheu sua boca e com um movimento rápido de angustia repousou sua mão no lábio inferior, mas não havia nada, só uma vaga lembrança de um beijo.

Decidiu que era melhor esquecer toda aquela história, era uma loucura andar sozinha pela rua, descalça e molhada. Seja quem for que escreveu a carta, vai aparecer um dia e se não aparecer, tudo bem, muitas coisas podem ser esquecidas na vida, ainda mais quando queremos esquece-las.

Voltou para a sala cinza, e ninguém notara sua ausência. Apenas perguntaram como havia se molhado tanto, a mentira veio: disse que tinha ido tomar café na rua de cima e a chuva a pegou.

Ninguém notou seus pés nus e sujos de grama, só ele. Aquele rapaz que trabalhava no outro andar, que dizia bom dia cordialmente e sempre colocava um bombom em sua mesa nas quartas-feiras. Aquele rapaz que a levou para casa nos dias que a luz acabou por causa das chuvas. Aquele rapaz cheio de sorrisos durante o almoço e que a elogiava quando estava de tênis e camiseta.

Aquele rapaz que não tirava os olhos dela, aquele da caligrafia perfeita, aquele Phil Neumann.